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| Imagem: Web conferência - Edifício Meridiano - Bogotá/Colômbia |
Em um continente marcado por crescentes incertezas climáticas, transformações sociais aceleradas e graves desigualdades territoriais, olhar para o amanhã tornou-se uma urgência de sobrevivência urbana. Nesta segunda-feira, no dia 21 de setembro, especialistas de diversos países da América Latina e do Caribe reuniram-se via web conferência para avançar nos trabalhos da Rede Futuros Urbanos, uma iniciativa internacional pioneira promovida pelo Lincoln Institute of Land Policy. O encontro marcou um passo decisivo no mapeamento de tendências emergentes e na construção de estratégias de resiliência capazes de preparar nossas metrópoles para múltiplos amanhãs possíveis.
O que é a Rede Futuros Urbanos e por que ela importa?
Para a imensa maioria da população que nunca ouviu falar na Rede Futuros Urbanos, o projeto surge para quebrar a lógica tradicional do planejamento urbano público. Historicamente, governos e planejadores trabalham com previsões lineares de futuro que frequentemente falham ao serem confrontadas por crises imprevisíveis, como eventos climáticos extremos ou pandemias.
A Rede Futuros Urbanos reúne 30 especialistas de 19 países da América Latina e do Caribe. A iniciativa destaca-se por assegurar paridade total de gênero e pluralidade setorial, congregando gestores públicos, acadêmicos, líderes comunitários e urbanistas.
Como pensar os futuros: Do "sinal fraco" às megatendências
A metodologia central adotada pela rede é o planejamento exploratório por cenários, explicado durante as reuniões pela equipe técnica liderada pelos analistas Daniela Faria e Geovani Perez. A premissa fundamental é que não existe um único futuro, mas sim múltiplos caminhos possíveis que dependem das decisões tomadas no presente.
Para estruturar essa investigação, a ciência de futuros divide os fenômenos da realidade em quatro categorias interligadas:
- Megatendências: Forças globais de longo prazo e grande escala que moldam o planeta de forma contínua, como a crise e as mudanças climáticas.
- Tendências: Cadeias de transformação regionais que possuem uma trajetória reconhecível e baseada em evidências, a exemplo do aumento da mobilidade climática.
- Forças Motrizes: Vetores e fatores de mudança decisivos que possuem impacto direto em um sistema de interesse específico ou política pública.
- Sinais Fracos: Pequenos acontecimentos, fatos cotidianos ou fenômenos emergentes que ainda passam despercebidos pelo público geral, mas que funcionam como "pistas" de grandes transformações futuras.
A web conferência realizada hoje centrou-se em um exercício colaborativo de "escaneamento do entorno", no qual os integrantes da rede analisaram 91 sinais fracos mapeados em 20 cidades de 13 países.
Um dos casos de maior repercussão debatidos no encontro foi o emblemático Edifício Meridiano, localizado no centro de Bogotá. Trata-se de uma edificação de 30 andares construída com apenas 25 metros de largura e 732 apartamentos. O caso acendeu um intenso debate entre especialistas da Colômbia, do Paraguai, do Brasil e de outros países, sobre o avanço da hiperverticalização e das moradias compactas (redução drástica do espaço vital). Analisou-se como alterações e flexibilizações nas normas urbanísticas municipais frequentemente permitem empreendimento sem requisitos razoáveis de adequações (busca apenas de alta rentabilidade), moldando o espaço urbano sob pressões do mercado imobiliário em detrimento do bem-estar comunitário.
Além da verticalização extrema, a reunião desta tarde debruçou-se sobre outros temas do cotidiano urbano, como:
- Fim do dinheiro físico no transporte: O avanço da digitalização dos pagamentos via QR Code e cartões em frotas de ônibus em cidades brasileiras e latino-americanas, levantando alertas sobre a inclusão e exclusão financeira no acesso à mobilidade.
- Emergências e adaptação climática: A escassez de municípios na região com planos de adaptação climática publicados e estruturados.
- Uso e apropriação do espaço público pela juventude: Manifestações culturais emergentes entre os jovens em praças e parques centrais — como a busca por pertencimento através de performances urbanas, encontros presenciais e dinâmicas conhecidas no ambiente digital como "farmar aura".
- IA e identidades sintéticas: A discussão emergente sobre a preservação da integridade cognitiva dos cidadãos diante de conteúdos sintéticos e desinformação, encarada como um elemento fundamental para a sustentabilidade e a segurança democrática nos territórios.
A voz do especialista: Recorte para a contribuição do Prof. Bazzoli
O professor João Bazzoli, docente da Universidade Federal do Tocantins (UFT) e coordenador do Laboratório de Cidades, na sua intervenção durante o debate sobre as transformações urbanas recentes na América Latina, apresentou uma perspectiva crítica ao pontuar a hiperverticalização que vem avançando nas cidades, com construções de torres que não justificam os seus padrões, e exemplificou como isto se estrutura no cotidiano de Palmas, Capital do Tocantins, Brasil, pontua que "grandes edifícios estão sendo construídos em uma cidade vazia", complementa enfatizando: "é importante salientar que esta reunião de hoje nos leva a importante reflexão sobre pensar novas formas de planejamento urbano nas cidades latino-americanas, obviamente tendo o exercício da cidadania como elemento essencial (participação popular)."
Rumo a 2027: Construindo estratégias para múltiplos amanhãs.
Os trabalhos desenvolvidos no encontro de hoje, 21 de setembro, integram o primeiro ciclo de atividades da Rede Futuros Urbanos, programado para se estender até abril de 2027. Ao longo deste período, os membros da rede participarão de workshops e encontros de cocriação, cujos resultados serão consolidados em narrativas e relatórios abertos com diagnósticos práticos para orientar formuladores de políticas públicas e urbanistas de toda a região.
Como sintetizou a equipe organizadora do encontro ao encerrar a reunião, antecipar o amanhã é a única forma de evitar que nossas cidades fiquem reféns de tragédias previsíveis. O olhar prospectivo e colaborativo consolidado hoje pela Rede Futuros Urbanos reafirma que planejar as cidades latino-americanas exige coragem para enfrentar a incerteza e compromisso ético para construir territórios mais justos, sustentáveis e humanos.

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