Se um jovem latino-americano decidisse economizar 100% de um salário-mínimo a partir de hoje — sem comer, se transportar ou realizar qualquer outro gasto —, ele só conseguiria comprar um apartamento de 70 m² no ano de 2059. A estimativa de 10 a 35 anos de espera contínua resume o pesadelo urbano da América Latina, onde a casa própria deixou de ser o pilar clássico de patrimônio familiar e segurança para se transformar em uma utopia inacessível.
Nas últimas duas décadas, a taxa de proprietários despencou entre 15 e 20 pontos percentuais em diversos países da região, empurrando uma nova geração para a dependência do aluguel por tempo indeterminado.
Para pesquisadores o cenário expõe um nó crítico na gestão do solo urbano. O problema central extrapola a mera escassez de financiamento: a incapacidade de oferecer solo urbanizado e bem conectado em ritmo equivalente à demanda faz com que o valor da terra exploda, encarecendo inevitavelmente o imóvel. Conforme dados do Anuário da Habitação da América Latina e do Caribe realizado pelo Banco de Desenvolvimento da América Latina e o Instituto Lincoln, o preço de um imóvel na região supera em mais de quatro vezes a renda média anual familiar, enquanto o aluguel de um imóvel básico chega a consumir metade ou mais de um salário-mínimo.
A pressão sobre os mercados imobiliários locais tem atingido patamares severos. Em 2024, os preços de venda subiram 9,5% na Colômbia, 8,9% no México e 6,9% no Brasil. O metro quadrado em Montevidéu atingiu US$ 3.209, liderando a região à frente de metrópoles como Cidade do México, Monterrey e Guadalajara (todas acima de US$ 2.700/m²) e Buenos Aires (acima de US$ 2.600/m²). No caso limite da capital argentina, a compra de um imóvel exige insólitos 129 anos de renda mínima integral, ultrapassando marcas registradas no Rio de Janeiro e em Lima (cerca de 65 anos) ou na Cidade do México (56 anos).
Essa inflação imobiliária contrasta com salários estagnados — cujo ganho real regional foi de apenas 1,7% em 2024 — e com a barreira da informalidade, que afeta quase metade da população economicamente ativa e impede o acesso ao crédito bancário tradicional. Se há poucas décadas uma família levava entre 7 e 10 anos de economia para adquirir uma casa, hoje são necessários 35 anos.
Como resultado, 40% dos jovens urbanos (entre 15 e 39 anos) vivem de aluguel — uma proporção quatro a cinco vezes maior do que a de seus avós. Na Colômbia, os inquilinos já superam os proprietários (40,4% contra 39,5%), alcançando mais de 50% dos lares em Bogotá.
Ademais, os processos de gentrificação e a expansão de alojamentos turísticos temporários pressionam a infraestrutura central. Em bairros emblemáticos na Cidade do México, entre 20% e 25% dos imóveis foram convertidos em aluguéis de curta duração. A carência de instrumentos públicos eficientes para redistribuir as mais-valias urbanas geradas pelos investimentos estatais aprofunda a segregação e a expulsão dos moradores históricos.
Diante do colapso do acesso ganha força o debate sobre arranjos alternativos de habitação. Por exemplo em Viena, onde 60% dos habitantes residem em habitações municipais ou subvencionadas, evidencia os ganhos de desmercantilizar o acesso à moradia.
Embora a fragilidade fiscal da América Latina impeça a reprodução exata dessa estrutura, ferramentas como as cooperativas de ajuda mútua no Uruguai (que abrigam mais de 35 mil famílias há cinco décadas) e a instituição de zoneamento inclusivo (Zonas Especiais de Interesse Social) indicam vias essenciais para reorganizar a política urbana regional.
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Ficha Técnica
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Ficha Técnica
• Material de Origem: "Por qué en América Latina casi nadie puede comprar casa".
• Veículo / Canal YouTube: DW Cómo te afecta (Deutsche Welle)/ Reportagem audiovisual.
• Endereço: https://www.youtube.com/watch?v=ycFNXtHy1xY
• Fontes e Organizações Citadas na Matéria: CEPAL, Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), Banco de Desenvolvimento da América Latina (CAF) / Instituto Lincoln de Políticas de Solo, Organização Internacional do Trabalho (OIT), Consultoria Knight Frank e Universidad Torcuato Di Tella.
• Geografias Analisadas: Argentina (Buenos Aires), México (Cidade do México, Monterrey, Guadalajara), Colômbia (Bogotá), Brasil (Rio de Janeiro), Uruguai (Montevidéu), Chile, Peru (Lima), Costa Rica, Honduras, Paraguai e Bolívia.
• Geografias Analisadas: Argentina (Buenos Aires), México (Cidade do México, Monterrey, Guadalajara), Colômbia (Bogotá), Brasil (Rio de Janeiro), Uruguai (Montevidéu), Chile, Peru (Lima), Costa Rica, Honduras, Paraguai e Bolívia.

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