O Tocantins enfrenta um desafio social e econômico monumental: cerca de 45 mil domicílios compõem o déficit habitacional do estado. Diante de um número tão expressivo, as promessas políticas durante períodos eleitorais frequentemente correm o risco de cair em fórmulas vagas, termos genéricos e repetições de programas já existentes. É exatamente nesse cenário complexo que se discutir o tema à luz do Direito Urbanístico se torna indispensável para traduzir intenções em viabilidade prática. Longe de ser apenas uma discussão de gabinete, o urbanismo jurídico é a ferramenta capaz de moldar políticas que garantam dignidade real e permanência das famílias em seus territórios.
Para descortinar essa realidade com o rigor técnico necessário, a análise exige a bagagem de quem vive a teoria e a prática. O professor João Bazzoli, docente da Universidade Federal do Tocantins (UFT) e membro do Instituto Brasileiro de Direito Urbanístico (IBDU), foi um dos que contribuíram para desenhar as bases do setor no estado, pois participou como o responsável jurídico na elaboração do Plano de Habitação de Interesse Social do Estado do Tocantins, marco que deu origem à legislação habitacional local. Sua larga experiência acadêmica e a atuação em outras entidades de planejamento urbano o credenciam como uma das vozes para avaliar o futuro habitacional da região.
Ao debruçar-se sobre os planos de governo dos candidatos ao Palácio Araguaia para as eleições de 2026, o professor Bazzoli, atendendo ao Jornal Opção, que publicou reportagem assinada por Samir Leão, no dia 18 de agosto (Fonte: Jornal Opção clique aqui para acessar a matéria na sua íntegra), joga luz sobre um problema crítico que passa despercebido pela maioria dos eleitores: a ausência de metas quantitativas ao falar do tema habitacional. Embora cinco das seis candidaturas abordem a habitação em suas propostas, nenhum candidato estabelece claramente o quantitativo de entregas até 2030.
Para o especialista, muitos planos limitam-se a reproduzir instrumentos já previstos na Lei estadual nº 4.684/2025, que instituiu o programa "TO em Casa", sem definir a escala, o cronograma ou o orçamento real para sua execução. Essa repetição de mecanismos que o Estado já possui esvazia o debate eleitoral, dificultando que o cidadão compreenda a real prioridade de cada projeto.
O Caminho das Pedras: As Sugestões do Especialista
Mais do que diagnosticar e criticar as fragilidades, o professor Bazzoli apresenta alternativas estruturais e inovadoras que vão muito além da tradicional (e muitas vezes insuficiente) construção de conjuntos habitacionais isolados. Suas propostas urgem por um modelo mais dinâmico e integrado de desenvolvimento:
- Locação Social Pública: O avanço em modelos de moradia alugada e subsidiada pelo Estado como alternativa viável à propriedade privada para famílias de baixa renda.
- Aproveitamento de Imóveis Ociosos: Ampliar o uso de terrenos e prédios vazios ou subutilizados nas áreas urbanas centrais, combatendo a especulação imobiliária.
- Diversificação de Fontes de Financiamento: Reduzir a dependência exclusiva de recursos federais (como o programa Minha Casa, Minha Vida) através da captação de recursos próprios do estado e outras parcerias.
- Integração Urbana Total: Unificar as políticas de habitação aos eixos de saneamento básico e mobilidade urbana, evitando que os novos empreendimentos resultem em periferização e isolamento social.
- Fortalecimento da ATHIS e da Regularização fundiária: Ampliar a regularização fundiária e a Assistência Técnica para Habitação de Interesse Social (ATHIS) aos municípios, garantindo que as prefeituras tenham apoio técnico e jurídico para aplicar as leis.
A moradia digna, vista sob a ótica do Direito Urbanístico, não é apenas um teto; é a porta de entrada para a cidadania, para a saúde e para o desenvolvimento econômico local. Compreender as propostas dos candidatos sob esse olhar técnico e crítico é o primeiro passo para que o eleitor possa, de fato, cobrar uma cidade que caiba a todos.
Fonte: Jornal Opção






